segunda-feira, 29 de junho de 2009

Avaliação do Hemograma.

As votações encerraram e os leitores do MedVet InFocus estiveram mais interessados em saber sobre a interpretação do hemograma com 73% dos votos. O que não me surpreende pois o hemograma, embora sendo um dos exames iniciais e "básicos" em quase todos os pacientes, continua sendo um exame que exige um nível de conhecimento e experiência por parte de quem está avaliando.

O exame de sangue completo envolve o estudo das células vermelhas (hemograma), células brancas (leucograma) e das plaquetas. Eu prefiro sempre começar a avaliar o exame de sangue pelas células brancas, porque dependendo das alterações notadas no leucograma você já pode antecipar como o hemograma poderá estar. Não vamos falar sobre o leucograma nesse texto.

Um dos primeiros grandes fatores que já fazem com que a maioria dos clínicos não aproveitem tudo o que o hemograma tem parae oferecer é não realizar um esfregaço sanguíneo junto com o hemograma. O exame de sangue completo deveria envolver a análise de dados quantitativos e qualitativos (esfregaço sanguíneo). Para exemplificar a importância do esfregaço sanguíneo, em uma situação de emergência, basta checar o hematócrito, proteínas totais e realizar o esfregaço que você terá informações suficientes para tomar atitudes rápidas enquanto espera pelo resto do hemograma.

Você deve sempre tentar avaliar todos os parâmetros testados no hemograma. Eu particularmente dou muito mais atenção ao hematócrito, hemáceas, proteínas totais e hemoglobina, esses são todos indicadores de massa celular. Os índices (MCV, MCHC, MCH e RDW) também são importantes e podem ajudar a diferenciar as anemias em regenerativa ou não-regenerativa, mas eu não confio muito neles e prefiro me basear no valor dos reticulócitos.

A primeira coisa que eu faço ao ver um hemograma é tentar checar se existe anemia, policitemia ou se está normal. Você só precisa olhar os valores do hematócrito, hemoglobina (Hb) e a contagem de hemáceas. Se você tem valores baixos nesses testes então você está diante de uma anemia. Valores normais podem acabar mudando em poucas horas ou dias então é importante sempre checar o hemograma várias vezes, e valores aumentados indicam um estado de policitemia.

Frente a uma anemia é importante classificá-la em regenerativa ou não- regenerativa. Muita gente usa apenas os índices para chegar a essa conclusão, mas como eu disse, eu prefiro me basear na contagem de reticulócitos e no esfregaço sanguíneo na procura por policromasia. Outro detalhe na contagem de reticulócitos é sempre avaliar seu valor exato. Alguns laboratórios informam apenas a % de reticulócitos. Se isso acontecer basta pegar essa % e multiplicar pelo valor das hemáceas, isso lhe dará um valor absoluto de reticulócitos. Caso você tenha chegado a conclusão de que essa anemia é mesmo regenerativa, existem dois mecanismos principais que causam esse tipo de anemia: 1 - hemorragia e 2 - hemólise, e muitas vezes o exame físico pode ajudar a eliminar uma ou outra causa. Outro macete é olhar o valor dos reticulócitos, valores muito altos tendem a acontecer em anemias hemolíticas e o motivo disso é porque quando as células vermelhas se rompem, elas acabam liberando ferro na circulação, e esse ferro é utilizado pela medula óssea para eritropoese. Novamente a avaliação do esfregaço sanguíneo é fundamental nos casos de anemias hemolíticas na busca de heinz bodies, esferócitos, micoplasma, protozoários e e fragmentação de hemáceas.

Mas e se a anemia é não-regenerativa? Nesse caso você deve perguntar a sí mesmo se existe como determinar a origem sem ter que olhar na medula óssea. A maioria dos casos de anemia não-regenerativas são causadas por inflamações crônicas e esse é um dos motivos do porque eu gosto de ver o leucograma antes.

E por fim, para não termos um texto muito comprido, se não há anemia mas sim policitemia você precisa determinar se essa policitemia é absoluta ou relativa, 90 a 95% dos casos de policitemia são relativas, ou seja, causadas pela hemoconcentração.

Interessado em saber mais sobre esse assunto por favor poste seu comentário abaixo ou mande sua pergunta via e-mail.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Obesidade em Cães

Obrigado pela participação dos que postaram seus votos para o próximo assunto. A maioria quis saber mais sobre Obesidade em cães. O que não me surpreende muito pois esse é um assunto muito importante hoje em dia em medicina veterinária. Na verdade não somente na veterinária mas obesidade vem crescendo também na população humana. Os dados que vou usar são todos dos EUA, eu acredito que a obesidade nos EUA é pior do que nos outros países mas não muito pior. O último estudo em cães nos EUA envolveu uma população de quase 22.000 cães de vários estados em diversos hospitais veterinários e estimaram que 29% desses cães estavam acima do peso enquanto 5.1% eram obesos. O que preocupa é que estando acima do peso ou obeso já era o suficiente para exacerbar doenças ortopédicas, causar resistência a insulina e pior de tudo diminuir a expectativa de vida.

Por esse motivo é importante trabalhar a idéia da obesidade em pacientes que estão acima do peso, não necessariamente obesos, e para isso a melhor maneira é utilizar o índice de escore corporal que avalia a presença de tecido adiposo com relação ao peso ideal. Esse mesmo índice pode ser usado em pacientes obesos para checar o progresso da perda de peso. Existem dois sistemas principais, eu prefiro usar o sistema de 9 pontos, cada ponto representa 10-15% do peso ideal e obesidade é considerada quando existe 25% acima do peso ideal.

Sem dúvida e pergunta que mais escuto falar sobre esse assunto é - Quanto devo dar de comida? O consumo ideal de comida deveria na verdade ser calculado para cada indivíduo incluindo todas as fontes de calorias, "comida da mesa - restos de comida"e biscoitos para cães. Se esse valor pode ser determinado, o programa de perda de peso consiste em oferecer 80% da energia requerida diária. Caso esse valor não possa ser determinado (maioria dos casos) devido a maneira em que o proprietário alimenta seu cão, o recomendável é utilizar a fórmula de Energia requerida em repouso (RER do inglês resting energy requirement).

RER = 70 * (peso em KG)^3/4

Uma vez respondida essa pergunta, vem a próxima pergunta mais comum - O que devo dar de comer? Para um programa de perda de peso eu recomendo usar dietas terapêuticas veterinárias, essas dietas possuem calorias "diluídas" em um volume de fibras. Mas independente da fórmula utilizada, dietas para perda de peso devem conter pelo menos 90% de calorias necessárias diariamente. Um dos motivos que me levam a preferir usar diétas terapêuticas é a certeza de que não estou restringindo outros nutrientes essenciais.

Eu vejo que muitos clientes hoje em dia estão mais conscientes que devem começar um programa de dieta para seus cães obesos mas poucos conseguem passar pela fase de manutenção da dieta. As diétas terapêuticas não servem como dietas fixas para a vida do animal, elas servem apenas para que eles possam perder peso e voltar ao peso ideal. O trabalho principal vem na manutenção do peso. Para acompanhar o progresso da perda de peso eu peso o animal na mesma balança cada 2 - 4 semanas. O objetivo é perder 1 a 2% de peso por semana. Por exemplo, um cão com escore corporal de 7/9 está pelo menos 20-30% acima do peso, se o plano for perder 1% de peso por semana, isso pode levar de 20-30 semanas, por isso os donos desistem no meio do tratamento. Essa mesma situação pode piorar caso o dono aumente a restrição de comida para acelerar a perda de peso. É importante o veterinário estar atendo as percentagens de perda de peso e controlar a mesma, perder peso muito rápido devido a alta restrição pode causar mudanças comportamentais nos cães como implorar por comida ou roubar comida da mesa ou do lixo. O inverso também pode acontecer, o cão pode perder muito pouco peso ou até ganhar peso, nesse caso devemos orientar o proprietário novamente sobre os benefícios do programa.

Caso queira saber mais sobre Obesidade em cães poste seu comentário abaixo.

sábado, 13 de junho de 2009

Achados de Malignidade na Citologia.

Respondendo uma pergunta de um colega que pratica em Belo Horizonte, MG. "Prezado Dr. Bolfer, eu acompanhei como leitor o último caso de Linfoma do Hospital Veterinário Virtual - www.freepowerboards.com/hvv - e gostaria de saber quais são os critérios usados para se chegar a conclusão de que as células são realmente malignas?

Identificar malignidade nas células de um slide, seja ele um aspirado um uma impressão, é muito subjetivo e pode variar muito entre observadores. Eu não sou patologista e recomendo sempre enviar amostras de tecido e slides para o laboratório para ter um avaliação mais especializada, mas acredito que podemos ter uma idéia geral do que está acontecendo fazendo citologias na hora no hospital. Para isso eu uso um critério que envolve tentar identificar pelo menos 4 ou 5 das 8 características básicas de malignidade abaixo.

1 - Anisocariose - variação no tamanho das células

2 - Ploemorfismo - variação no tamanho e no formato de células do mesmo tipo celular

3 - Alta relação núcleo:citoplasma - geralmente aumento do núcleo e pouco citoplasma

4 - Atividade mitótica acentuada - essa característica é rara em células de tecidos normais, nas mais variadas neoplasias você pode encontrar figuras mitóticas ou células que não estão se dividindo igualmente.

5 - Padrão de cromatina "grossa" - quando você tem cromatina onde o padrão parece mais grosseiro ou rugoso do que o normal.

6 - Transformação Nuclear - são deformidades notadas no núcleo das células por núcleos na mesma célula ou em outras células adjacentes.

7 - Multinucleação - presença de múltiplos núcleos em uma mesma célula.

8 - Variação Nuclear - presença de núcleos que variam em tamanho, forma e número.

Infecção Cutânea por Fonsecaea pedrosoi em cães

Foi publicado no Journal of Veterinary Diagnostic Investigation o relato de caso de um cão diagnosticado com Fonsecaea pedrosoi. (Rajeev, S, Clifton G, Watson C, Miller D. J VET DIAGN INVEST 20:379-381, 2008). Os autores relatam ter diagnosticado a infecção em um cão da raça Jack Russeal Terrier na Geórgia, EUA. O paciente apresentava história cronica de doença de pele que tem respondido minimamente a vários antibióticos e antifúngicos. Foi realizada biópsia de pele para análise histopatológica e cultura fúngica e bacteriana. A análise revelou inflamação mista com alta população de linfócitos, macrófagos, células plasmáticas e reduzido número de eosinófilos e neutrófilos. Uma população mista de bactérias cresceu na cultura bacteriana mas o que chamou a atenção foi o crescimento de F. pedrosoi na cultura fúngica.

F. pedrosoi é o agente etiológico da cromoblastomicose em humanos, uma infecção fúngica cutânea e de tecidos subcutâneos. Esse fungo já havia sido isolado anteriormente em um gato mas nunca em um cão. Esse tipo de infecção requer uma terapia médica e cirúrgica significativa e raramente é curativa. Recorrências e relapsos são muito comuns. Esse paciente foi tratado com itraconazole mas apresentou diversos episódios de relapso durante tratamento.

Comentários
Esse é o primeiro caso de infecção por F. pedrosoi em cães. Devido a dificuldade no tratamento dessa infecção, esse fungo deve ser colocado na lista de diferenciais para doenças crônicas de pele especialmente em animais que vivem em áreas tropicais e subtropicais. Esse organismo possui potencial zoonótico e por isso o diagnóstico deve ser feito o mais cedo possível.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Atopia em Cães.

Obrigado pelas votações. O tópico Atopia em cães foi o mais votado com 42% dos votos. Vou escrever algumas coisas que foram comentadas mais recentemente sobre o assunto no Simpósio de Medicina Veterinária que ocorreu em fevereiro desse ano na Universidade da Califórnia - Davis.

Atopia é uma das dermatites mais comuns em cães. No entanto a patogenicidade dessa doença de pele é ainda pouco compreendida e não existe um teste diagnóstico específico. O diagnóstico da Atopia continua sendo um diagnóstico de exclusão de outras doenças com sintomas similares. Outras doenças que apresentam sintomas similares são: Alergia a picada de pulga, alergia alimentar, sarnas, pioderma ou dermatite fúngica por Malassezia. O grande problema está em diagnosticar os casos onde essas doenças estão presentes em conjunto.

O manejo do paciente com Atopia envolve 8 princípios que devem ser seguidos a risca.

1 - Comprometimento do proprietário em seguir as recomendações médicas
2 - Evitar contato com alérgenos conhecidos
3 - Controle efetivo e a longo prazo de pulgas
4 - Controle de uma alergia coexistente (alergia alimentar, pulgas)
5 - Controle do crescimento de bactérias oportunistas assim como fungos
6 - Utilização de terapia tópica
7 - Controle da inflamação com anti-inflamatórios não esteroidais
8 - Imunoterapia específica anti-alérgica

Caso tenha interesse em saber como se deve proceder em cada princípio desse deixe seu recado aqui.


terça-feira, 2 de junho de 2009

Doença Renal Crônica em Gatos.

Gatos possuem predisposição para doenças renais. Doença renal crônica ou insuficiência renal crônica requer um monitoramento do curso normal da doença assim como da resposta do paciente a terapia. Foi publicado recentemente no North American Veterinary Conference 2009 um estudo sobre o tema. (Polzin D. NAVC PROC 2009, pp761-764.)

Quando falamos sobre a terapia de gatos com IRC, estamos nos referindo principalmente aos 4 objetivos principais - 1) Prover nutrição adequada e de qualidade, 2) Corrigir deficiências e excessos de fluido e eletrólitos, 3) Aliviar os sinais clínicos da doença e 4) Prover uma terapia que seja protetora renal e que reduza o progresso da doença. O primeiro objetivo acima citado, requer a atenção a duas recomendações principais - oferecer uma ração renal e garantir uma nutrição adequada. Quando se fala em dieta renal, não se trata apenas de baixo valor proteico, mas modificar uma variedade de outros fatores que são de grande benefício ao paciente. A má nutrição é a principal causa de morbidade e mortalidade em gatos com IRC. Com relação ao objetivo 2 acima, as recomendações principais são; manter a concentração de fósforo abaixo dos valores críticos, manter o valor de potássio dentro dos limites normais, corrigir acidose metabólica e manter a hidratação. O terceiro objetivo principal, citado acima, tem como foco corrigir uma possível anemia com uso de fármacos como eritropoetina e aliviar sinais gastrointestinais como redução do apetite, náusea, vomito, estomatite urêmica e halitose. O quarto objetivo serve para tentar diminuir o progresso da doença, reduzindo a magnitude da proteinúria, minimizando a hipertensão e provendo calcitriol quando necessário.

Comentários:
O tratamento da IRC exige uma integração forte entre proprietário e veterinário, é importante concientizar o proprietário que se trata de uma doença progressiva e que o tratamento visa aumentar a qualidade e expectativa de vida do paciente.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Hipotireoidismo em Cães - O que testar?

Prezados leitores do meu Blog. Na votação tivemos 46% dos votos para testes em Endocrinologia contra 40% para Atopia em cães. Decidí então pegar uma pergunta de um colega que pratica em Olinda, Pernambuco - obrigado pela participação. A pergunta se refere a quais testes usar na suspeita de cães com Hipotireoidismo. Dr. Richard W. Nelson, DVM, DACVIM, falou sobre isso recentemente no simpósio da Universidade da Califórnia - Davis.

Existe basicamente 4 testes laboratoriais que eventualmente voce irá acabar usando tanto para diagnóstico como monitoramente da terapia de cães com hipotireoidismo. O primeiro dele é medir a concentração total do hormônio T4. Como o próprio nome diz,vc está medindo a concentração de T4 ligado e não ligado a proteínas plasmáticas. A concentração normal em cães é 0.8 a 3.5 microg/dl e pode variar dependendo da raça. Esse teste é o primeiro porque não existe até hoje condições conhecidas que podem resultar na concentração normal de T4 em cães com hipotireoidismo. Ou seja, é um ótimo teste de exclusão, porém, caso seu valor dê realmente baixo, agora sim, existem diersos fatores que podem diminuir a sua concentração em um cão - seja doenças ou medicamentos. Em situações onde a concentração estaja abaixo de 0.5 em cães sem sinais de outras doenças, pode-se fechar o diagnóstico presuntivo e tentar terapia para ver se responde, sem correr demais testes. Porém, isso nem sempre ocorre, a maioria dos cães com hipotireoidimos irão cair nos níveis >0.6 <1.

O próximo teste é medir o T4 livre. T4 livre é a fração do hormônio T4 não ligada a proteína e por isso chamado livre. Esse teste ajuda na a elucidar o caso em conjunto com o T4 total, isso porque o T4 livre não sofre tanta influência de doenças e medicamentos, sendo assim, valores acima de 1.5 ng/dl ocorrem em casos onde a baixa do T4 é secundária à uma doença ou medicamento, e valores abaixo de 0.5 ng.dl suportam o diagnóstico de hipotireoidismo. O problema é que valores entre 0.5 e 1.5 ng/dl não são diagnósticos.

Outro teste que pode ajudar, caso o T4 total e o T4 livre estejam inconclusivos, é medir o valor do TSH (Hormônio estimulante da tireóide). Em teoria, o TSH deveria estar elevado em cães com hipotireoidismo, geralmente você espera por valores acima de 0.6ng/ml. Infelizmente a concentração pode estar normal em cães com hipotireoidismo e pode estar elevada em cães com valor baixos de T4 mas que não possuem hipotireoidismo. Por isso é importante rodar todos os testes ou "painel" para ver o que cada um nos diz.

Outro teste disponível é testar o sangue para auto-anticorpos para tireoidite linfocítica. Esse não é na verdade um teste de função glanduar mas pode ajudar no diagnóstico caso os demais testes sejam inconclusivos. O importante quando se suspeita de hipotireoidismo em cães é sempre realizar mais de um teste, nunca usar um único teste para suportar o diagnóstico e sempre relacionar o resultado com os sinais clínicos do paciente.

Caso tenha interesse em saber mais, poste seu comentário abaixo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Biomarcador Cardíaco - Cardiopet proBNP

Continuando na Cardiologia, não deixem de ler o tópico anterior sobre o estudo QUEST, mas dessa vez mais uma novidade nos EUA, não tenho certeza se no Brasil também, o laboratório IDEXX lançou o Cardiopet proBNP. Trata-se de um exame de sangue que mede a presença de proBNP - um biomarcador cardíaco que ajuda a determinar o status da doença cardíaca de cães e gatos. Em conversa com o Dr. Andrew Beardow - Cardilogista do IDEXX, ele garantiu que incorporar o Cardiopet na tentativa de diagnóstico preliminar de doenças cardíacas pode levar a uma detecção mais cedo de quando o paciente está na iminência de entrar em insuficiência cardíaca congestiva, com isso ambos veterinário e proprietário poderão se preparar para o tratamento da doença mais cedo. Ele sugere incluir proBNP no teste de pacientes com sinais de doença cardíaca assim como em gatos com ritmo de galope e mais de 4 anos de idade.

Mais interesse nesse assunto? Poste seu comentário ou escreva para drbolfer@gmail.com

domingo, 24 de maio de 2009

Pimobendan!

Respondendo a pergunta de um colega que pratica em Brasília. "Qual a eficácia do Pimobendan no tratamento de cães com doença cardíaca?" Não existe uma resposta certa ainda para essa pergunta, muitos cardiologistas possuem opiniões diferentes sobre o uso ou não e quando usar e para quais doenças. No entanto a sua pergunta foi bastante oportuna pois foi realizado um estudo bem recente chamado QUEST (Quality of Life and Extension of Survival Time). Foi um estudo de grandes proporções conduzido na Europa envolvendo 11 países, 28 centros de pesquisa, 32 investigadores, 260 cães de 31raças. Para referencia: HaggstromL et al. Effect of Pimobendan or Benazepril hydrochloride on survival times in dogs with congestive heart failure caused by naturally occuring myxomatous mitral valve disease.The Quest Study. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2008; 22:1124-1135. Vale a pena ler o artigo completo se você realmente gostaria de ter uma visão mais completa sobre o assunto, mas o ponto principal do estudo foi comparar o uso de Benazepril + furosemida com Pimobendan + Furosemida, infelizmente não se avaliou a combinação Benazepril + Pimobendan + Furosemida, que é na verdade a maneira que temos usado por aqui. Mas enfim, os autores concluíram que a sobrevida dos cães tratados com Pimobendan foi quase que o dobro dos que foram tratados com Benazepril (267 dias vs 140 dias).

Caso tenha mais interesse em saber como temos usado aqui poste um comentários e seguiremos discutindo.

sábado, 23 de maio de 2009

Bartonella - Doença da Arranhadura do Gato!

Obrigado pela participação dos colegas que enviam e-mails com perguntas. Não deixem de participar da votação no início da página do Blog.

Escrever sobre Bartonella na verdade não surgiu de nenhuma dúvida dos colegas mas de uma palestra que eu participei há alguns dias atrás, ministrada pelo Dr. William Hardy, diretor de um dos maiores laboratórios dos EUA - National Veterinary Laboratory, Inc. A palestra foi ótima abrangendo todos os aspectos importantes sobre o tema. Bartonella é uma bactéria que causa doença em gatos e que pode causar sérios problemas para nós, donos de gatos, ou qualquer pessoa que tenha contato com gatos infectados. Existem aproximadamente 20 espécies dessa bactéria sendo transmitida principalmente pela pulga. O gato pode transmitir essa bactéria para as pessoas através de arranhões (daí o nome Doença da Arranhadura do Gato), ou mordidas.

Das 20 espécies de bactérias que eu comentei inicialmente, o gato pode se infectar com 6 delas, e aí vem o grande problema, eles podem ser portadores e infectar pessoas sem que ninguém saiba. As bactérias mais envolvidas na contaminação gato-humanos são: Bartonella henselae e Bartonella clarridgeiae, porém outras espécies foram reportadas causando doenças em pessoas portadoras de doenças que causam baixa na imunidade. A prevalência de gatos infectados com Bartonella nos EUA é alta chegando a 28% em alguns estados (principalmente estados do Sudeste) eu acredito que o mesmo seja verdade no Brasil nas regiões mais húmidas e quentes.

Os sinais clínicos mais comuns em gatos são gengivite, estomatite, ulceras na boca e aumento dos linfonodos submandibulares, mas vários outros sintomas podem estar presente afetando os olhos, pele e trato gastrointestinal. Em nós humanos, os sinais clínicos mais comuns são linfoadenomegalias, febre, endocardites, angiomatose, e corioretinite. Felizmente o tratamento tanto em gatos como em pessoas é simples e envolve o uso de antibióticos por um período longo, o maior problema na verdade é diagnosticar a doença a tempo, uma vez que ela pode ser confundida com várias outras.

Por isso é muito importante testar os gatos, principalmente gatos que foram resgatados das ruas e colocados para adoção. Existem diversos testes disponíveis mas nem todos fornecem bons resultados devido ao fato dessa bactéria ser de difícil cultura e identificação via ELISA ou PCR. Nos EUA método de escolha e serologia (Western Immunoblot), que requer um laboratório mais especializado, muito embora o custo do teste não seja proibitivo (em torno de 20 dólares).

Prevenir pulgas, testar gatos novos e tratar os positivos são algumas medidas que nós veterinários podemos tomar para reduzir o risco das pessoas se contaminarem com essa bactéria. Existem diversos outros detalhes sobre essa doença no material distribuído no dia da palestra e que seria impraticável cobrir tudo no blog, mas se você tiver interesse em saber mais poste seu comentário abaixo para discutirmos.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Hipertensão em gatos com Insuficiência Renal

Essa pergunta veio de um colega de Londrina no Paraná. Gostaria de saber que métodos vocês usam para controlar hipertensão secundária a doença renal em gatos. Esse ano mesmo tivemos uma palestra interessante sobre esse assunto no North American Veterinary Conference por Elliott J. e o resumo pode ser encontrado nos anais, pp 744-745. O objetivo principal do manejo da hipertensão em gatos é proteger e evitar sérios danos a órgãos como cérebro e olhos, além de reverter a hipertrofia ventricular que acompanha a hipertensão e proteger os néfrons que ainda funcionam nos rins (reduzindo a pressão capilar glomerular e severidade da proteinúria). O tratamento mais frequente e eficaz é iniciar com 0.625 mg de amlodipine q24 hrs e monitorar a resposta. Gatos que mostram sinais de problemas neurológicos agudos ou cegueira devido ao descolamento da retina, a pressão sanguínea deverá ser monitorada todos os dias para que seja possível avaliar a resposta ao tratamento inicial com mais precisão. Na maioria dos casos, a pressão arterial é reavaliada em 7 a 14 dias. Se a pressão sistólica continua acima de 160 mmHg, aumenta-se a dose de Amlodipina para 1.25 mg e novamente reavalia a pressão em 7 a 14 dias. A maioria dos casos respondem bem a esse tratamento e a pressão arterial geralmente fica em torno de 130 a 160 mmHg. Caso a pressão caia para valores abaixo de 110 mmHg a dose deverá ser reduzida. Uma vez estabilizado, o paciente deverá ser reavaliado a cada 6 semanas. Alguns pacientes exigem múltiplas drogas para conseguir controlar a pressão, nesses casos, pode-se utilizar um IECA como benazepril, enalapril em combinação a Amlodipine. O que ainda não se sabe é quando devemos iniciar terapia em pacientes que possuem pressão arterial acima do normal ou no limite superior, mas que não apresentam nenhum sinal clínico, devemos tratar? qual medicamento usar? qual seria o valor ideal para manter a pressão nesses casos? Estamos esperando por mais estudos sobre isso.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Dieta e Pancreatite!

Um estudo retrospectivo foi conduzido para determinar se fatores específicos na dieta de cães podem estar associados a pancreatite. (Lem KY, Fosgate GT, Norby B, Steiner JM. Journal of Veterinary Medical Association 233:1425-1431,2008). Informações sobre a dieta e outros fatores foram extraídos de arquivos médicos de 198 cães diagnosticados com pancreatite e 187 cães controle com diagnóstico de doença renal sem evidência de pancreatite. Informações adicionais foram coletadas de proprietários através de um questionário. Os dados obtidos no estudo dos arquivos médicos revelaram que a pancreatite foi diagnostica principalmente em cães da raça Schanauzer Miniatura seguido por Yorkshire e terriers em geral. Cães com soro lipêmico (dieta muito gordurosa) apresentaram 3.9 vezes mais chances de ter pancreatite do que cães não lipêmicos. Cães com Diabetes Mellitos apresentaram 3.6 vezes mais chances de ter pancreatite. Cães obesos apresentaram 1.9 vezes mais chances de ter pancreatite quando comparados a cães com peso ideal ou abaixo do ideal. Com relação a dieta, cães que comem restos ou parte da comida de seus donos, que comem comida contida nos lixos residenciais, ou que comem uma quantidade de ração acima do recomendado, ou que comem ração de outros cães em parques ou casas de vizinhos apresentaram 2.9 vezes mais chances de ter pancreatite. Outros fatores incluem cães obesos, castrados e que passaram por outro tipo de procedimentos cirúrgicos.

Comentários
Alguns estudos anteriores a esse já haviam mostrado a relação entre dietas ricas em gordura e o desenvolvimento de pancreatite. Esse estudo confirma que é importante recomendar aos donos de cães para que ofereçam uma dieta estável evitando comidas adicionais e principalmente de consumo humano. Controlar obesidade, limitar acesso a restos de comida, comidas gordurosas e lixo residencial, levar a própria comida para parques e casas de pessoas que também possuem cães são alguns fatores que podem contribuir para a redução de casos de pancreatite.

domingo, 10 de maio de 2009

De olho na Leptospirose!!!

Leptospirose é uma doença zoonótica de ocorrência mundial. Mesmo sendo alguns sevorars hospedeiro específico, outros sevorars podem causar doença em vários hospedeiros diferentes. Vários casos de leptospirose em cães foram reportados nos anos de 2004 a 2006 trazendo dúvidas quanto a quantidade existente de cães infectados mas sem sintomas da doença. Foi publicado no Zoonoses Public Health 55:436-442, 2008 por Davis MA, Evermann JF, Petersen CR, et al. um estudo onde os autores testaram cães sadios para anticorpos contra leptospira. As amostras de soro de 158 cães foram testadas usando um teste padrão de aglutinação. Ao todo, 17.1% (27 das 158 amostras) tiveram resultado positivo, e os serovars Autumnalis, Icterohemorrhagiae e Canicola, foram os mais frequentes. Esses achados suportam a hipótese de que ainda existe um grande potencial para cães aparentemente sadios carrearem a doença e transmitirem para outros animais e principalmente para o homem.

Comentários
Leptospirose é uma doença séria em cães, e o fato de ser uma zoonose aumenta ainda mais a preocupação em se testar animais em determinadas áreas para definir a prevalência da doença. Estudos mais antigos indicavam que os serovars Icterohemorrhagiae e Canicola eram tradicionalmente as mais prevalentes, novos estudos alertam que Pomona e Grippotyphosa são as mais comuns hoje em dia.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Osteoartrite - Tratamento.

Prezados colegas, continuem enviando suas dúvidas para nosso e-mail drbolfer@gmail.com Esse tópico será destinado a responder uma dúvida de um colega que pratica em Maringá - Pr. A pergunta é : Qual o protocolo que vocês usam nos EUA para tratar Osteoartrite (OA) em cães?

Obrigado novamente pela sua pergunta, na verdade não existe um protocolo único ou amplamente utilizado como há para o tratamento de diversas outras doenças e quimioterapia. O aspecto mais desafiador do manejo de pacientes com OA ao longo do tempo é justamente tentar construir um protocolo e tentar utilizá-lo em todos os estágios da doença. Infelizmente não existe nenhum trabalho baseado em evidências médicas para nos auxiliar na escolha das modalidades mais efetivas. Como clínicos nós podemos recomendar opções farmacológicas, manuais e exercícios ou combinar esses três, sempre levando em conta o custo, efeitos e antecipar os benefícios comparado com as demais opções. A personalidade do paciente também conta muito nessa hora. Mas voltando a questão do protocolo, nos estágios iniciais de OA, o uso de anti-inflamatórios não esteroidais geralmente é capaz de controlar os sinais clínicos como dor e os pacientes são capazes de manter postura e motilidade normais. A medida que o tempo passa, é preferível introduzir alguma modalidade não farmacológica. Para cães que gostam de manter um contato muito próximo com os donos, como ficar no colo por exemplo, podem não apresentar motivação para exercícios (fisioterapia etc). Cães independentes com certeza se beneficiam muito mais desse tipo de modalidade. Infelizmente por se tratar de uma doença progressiva, os estágios finais da doença podem exigir breves hospitalizações para manejo da dor, descanso, acompanhamento nutricional e exercícios controlados. Caso alguém tenha interesse em saber mais sobre cada modalidade por favor deixe seu comentário para que possamos discutir sobre eles.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Foco agora é no Veterinário!

O médico veterinário além de ser responsável pela saúde dos animais, também tem importante participação na saúde pública. Foi publicado recentemente no Journal of Infection Diseases of North America 22:755-722, 2008 por Theiler RN, Rasmussen SA, Treadwell TA, Jamieson DJ., um estudo descrevendo as principais zoonoses e suas manifestações clínicas especialmente em mulheres. Um ponto importante tocado pelos autores é a presença de animais portadores de zoonoses mas que não apresentam sinais clínicos nenhum e atuam apenas como reservatórios para esses patógenos. Na revisão dos dados, foi sugerido que mulheres possuem maior susceptibilidade para infecções por Treponema pallium, e menor susceptibilidade para Febre Q (Coxiella burnetii) e West Nile Virus. Os cuidados devem ser ainda maiores para mulheres grávidas, agentes infecciosos que podem causar complicações durante a gravidez incluem: West Nile Virus, febre hemorrágica viral, coriomeningite linfocítica viral, síndrome respiratória por coronavirus, influenza aviária, T. pallidum, doença de lyme, febre do carrapato, leptospirose e doença de chagas.

Comentários
Existe um grande potencial para a transmissão de doenças zoonóticas entre veterinários e a população. Todos os veterinários precisam estar cientes dos riscos envolvidos e prevenir, uma vez que essas doenças podem ser facilmente transmitidas, especialmente para mulheres grávidas.

domingo, 3 de maio de 2009

Anaplasmose Granulocitica Canina.

Anaplasma phagocytophilum - um organismo gram-negativo intracelular conhecido também como Ehrlichia phagocytophila, Ehrlichia equi e Ehrlichiose granulocitica humana - é o agente causador da Anaplasmose granulocitica canina (CGA). Um estudo prospectivo, envolvendo 18 cães naturalmente infectados pelo A. phagocytophilum, vivendo em áreas com alta população do carrapato Ixodes ricinus, foi conduzido para descrever os sinais clínicos, anormalidades laboratoriais, diagnóstico, tratamento e curso da doença. (Journal of Veterinary Internal Medicine - Kohn B, Galke D, Beetlitz P, Pfister K, 22:1289-1295,2008). A maioria desses cães (17) foram infectados principalmente entre o mês Abril e Setembro, sendo que apenas um deles apresentou a doença em Novembro. O diagnóstico foi possível através de teste de PCR para A. phagocytophilum sem co-infecções. Achados diagnósticos comuns foram letargia, inapetência, febre e esplenomegalia. Resultados laboratoriais mais comuns incluíram: trombocitopenia, anemia, linfopenia, hipoalbuminemia e elevação da fosfatase alcalina. Infestação por carrapato foi notado pelos proprietários em 14 cães. Todos foram tratados com doxiciclina (5 mg/kg PO q 12hrs). Os autores alertam que a serologia isolada não deve ser usada como único meio de diagnóstico de CGA devido a grande possibilidade de falso negativo. O mês junto do histórico, sinais clínicos, hematologia, bioquímica e serologia podem apontar para um diagnóstico presuntivo e ser fechado mais tarde baseado na exclusão de outras possíveis infecções, resultado de PCR positivo e melhora do quadro clínico após instituído tratamento com doxiciclina.

Comentários
O diagnóstico de A. phagocytophilum, assim como outras doenças transmitidas por carrapatos, aumentou sua prevalência uma vez que os carrapatos que transmitem essa doença estão se espalhando cada vez mais pelo país. Cães com histórico de exposição a carrapatos devem ser testados para as diversas doenças possívelmente transmitidas (IDEXX Snap 4x é uma bom teste para isso). Mesmo cães que estão no controle para carrapato devem ser testados uma vez que é comum acontecer falha no tratamento pelos seus proprietários. O tratamento ideal continua sendo o uso de Doxiciclina e o mesmo pode servir para confirmar o diagnóstico dependendo da resposta positiva a terapia.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Nova forma de Pododermatite!

Pododermatite é uma doença de pele comum em cães causada por uma vasta lista de desordens. Foi publicado no Journal of Veterinary Dermatology (Duclos DD, Hargis AM, Hanley PW, 19:134-141, 2008) um estudo conduzido em 28 cães que apresentavam claudicação cronica associada a presença de nódulos interdigitais recorrentes. Esses cães foram tratados com cirurgia laser para remover as lesões, que se localizavam nas superfícies palmar e plantar e foram histologicamente caracterizadas como sendo cistos foliculares. O tempo de duração das lesões, até o momento da apresentação do paciente ao veterinário foi de 2.4 anos (0.5 a 7 anos). Clinicamente, as lesões se localizavam entre os dígitos 4 e 5 e principalmente afetando os membros anteriores. A cirurgia laser permitiu a remoção de múltiplas camadas do cisto, no entanto, alguns cães necessitaram mais de um procedimento devido a alta recorrência do cisto.

Comentários
Esse estudo descreve uma síndrome única em cães que ocorre principalmente secundário ao trauma constante. Acredita-se que a patogenicidade esteja relacionada a formação de hiperqueratose e acantose devido ao constate trauma externo. Uma vez que existem diversos fatores que podem contribuir para formação de lesões interdigitais, é de extrema importância excluir essa síndrome dos diferenciais para evitar perda da adesão do proprietário ao tratamento devido as constantes recorrências.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Adesivos de Lidocaina para Gatos.

Adesivos contendo lidocaina são utilizados em humanos para promover analgesia para dores causadas pelo Herpes zoster, dores pós-cirúrgica, e para controle da dor causadas por osteoartrites. Dois estudos demonstraram que esses adesivos são seguros para uso em cães; no entanto, sabe-se muito pouco sobre a segurança do seu uso em gatos. Na verdade, gatos são tradicionalmente usados como modelos para toxicidade a lidocaina. Foi publicado no Journal of Veterinary Pharmacology and Therapeutics (Ko JCH, Maxwell LK, Abbo LA, Weil AB, 31:359-367, 2008) um estudo onde 8 gatos foram divididos em 2 grupos. O primeiro grupo recebeu lidocaina 2 mg/kg IV e o segundo grupo adesivos de lidocaina contendo 700 mg por 72 horas. Plasma foi coletado em intervalos regulares. Bióspsia tecidual do local de aplicação do adesivo foi realizada e processada para avaliar a concentração de lidocaina. A análise dos dados revelou uma frequência constante de absorção entre 12 e 72 horas, no entanto, foi possível detectar absorção em 3 horas após aplicação. Após a remoção do adesivo, a concentração de lidocaina persistiu por 3.7 horas enquanto que a aplicação intravenosa durou 2.3 horas. A concentração de lidocaina se manteve abaixo dos níveis tóxicos. Os autores concluem que os adesivos podem ser usados com seguranças em gatos.

Comentários
Esse estudo demonstrou que é seguro usar adesivos de lidocaina em gatos por até 72 horas, que é o protocolo adotado na maioria dos hospitais para o adesivo de fentanil. Esses adesivos, caso aprovados mesmo, seriam uma boa alternativa ao uso de adesivos de fentanil, pois esse último é uma substância controlada. Novos estudos deverão ser conduzidos comparando o uso desses adesivos e também utilizando em gatos mais novos para ter certeza que essa é uma opção segura para controle da dor após cirurgica, como castração por exemplo, que é praticada em animais mais novos.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Tratamento para Epilepsia vs Pancreatite

Insuficiência pancreática exócrina e pancreatite foram documentadas em cães tratados para epilepsia com Brometo de Potássio (KBr). O novo teste para diagnóstico de pancreatite canina (cPLI - Lipase pancreática canina específica) foi utilizado para avaliar a concentração sérica de cPLI em cães tratados com KBr sozinho, fenobarbital sozinho ou a combinação de fenobarbital + KBr. Esse estudo foi publicado no Journal of Veterinary Pharmacology and Therapeutics por Steiner JM, Xenoulis PG, Anderson JA, et al., 9:37-44,2008. A atividade sérica do cPLI é específica exócrina do pâncreas, e estudos sugerem que é altamente sensível para o diagnóstico de pancreatite. De 337 amostras sanguíneas, 98 foram provenientes de cães tratados com KBr isolado, 118 de cães tratados com fenobarbital isolado, e 121 de cães tratados com ambos os fármacos. Vinte e três (6.8%) dos cães tratados com KBr isolado ou em conjunto com fenobarbital, tiveram concentrações acima do valor normal sugerido para pancreatite (199.9 mcg/L). Esse estudo indica que existe um risco elevado de pancreatite secundária ao tratamento de epilepsia com uso de qualquer dos dois fármacos.

Comentários
Esse estudo sem dúvida levanta suspeitas de que o uso de KBr isolado ou em conjunto com fenobarbital, assim como o uso apenas de fenobarbital, para tratamento de epilepsia em cães pode causar pancreatite. No entanto, os autores não informaram se esses cães possuíam sinais clínicos compatíveis com pancreatite. Novos estudos deverão ser conduzidos para tentar determinar se essas elevações no cPLI tiveram alguma relação com surgimento de sinais clínicos compatíveis com pancreatite. A elevação no cPLI foi realmente causadas devido a uma pancreatite ou devido a indução de secreção de lipase pancreática? A correlação entre elevação da cPLI e presença de sinais clínicos pode ser utilizada para determinar se esses fármacos realmente podem causar pancreatite em cães.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Emergência: Hemoperitoneo

Hemoperitoneo (hemorragia intra-abdominal) pode ser traumática ou não traumática em origem. A severidade pode variar e o manejo clínico é ainda controverso. Foi publicado recentemente no Journal of Veterinary Emergency and Critical Care (Herold LV, Devey JJ, Kirby R, Rudloff, E. 18:40-53, 2008), uma revisão do manejo emergencial do hemoperitoneo. Histórico e exame clínico podem alertar o veterinário sobre a presença de hemoperitoneo; uma avaliação da perfusão ajuda a categorizar o paciente de acordo com a severidade clínica. Os objetivos do manejo incluem: 1 - reestabelecer e manter um volume circulante efetivo, 2 - diagnosticar hemoperitoneo e identificar as anormalidade laboratoriais, 3 - manter capacidade de oxigenação e 4 - interromper a fonte da hemorragia. Os esforços devem ser introduzidos de uma maneira a manter pressão arterial média de 60 mmHg (sistólica 90 mmHg), manter oxigenação, essa pode ser otimizada com uso de transfusão sanguínea para repor a perda de hemoglobina (os autores recomendam transfusão nos casos em que o PCV é menor que 25% e hemoglobina menor que 8 g/dl). Uma vez que a hemorragia foi identificada, deve-se pesquisar por coagulopatias e procurar pela origem da mesma usando intervenção cirúrgica caso necessário. O prognóstico irá depender da etiologia do sangramento abdominal e o sucesso em reverter a situação. Uma revisão retrospectiva de 28 casos de hemoperitoneo traumático em cães mostrou taxa de mortalidade de 27%.

Comentários
Essa foi uma ótima revisão sobre hemoperitoneo em cães. Os autores incluíram informações sobre diagnósticos diferencias, métodos diagnósticos e orientação para o tratamento e controle da hemorragia. Sem dúvida vale a pena ler o artigo completo antes de se deparar com um caso de hemoperitoneo em sua clínica.

domingo, 26 de abril de 2009

Abscesso Pancreático - Algum Prognóstico?

Abscesso pancreático é uma complicação muitas vezes associada a pancreatite. O tratamento ideal é intervenção cirúrgica, mas infelizmente existem poucos estudos avaliando prognóstico, morbidade e mortalidade para que possamos basear nossas recomendações quanto ao tratamento. Recentemente, Anderson JR, Cornell KK, Parnell NK e Salisbury SK, publicaram um artigo no Journal of the American Medical Hospital Association, avaliando o tratamento cirúrgico de abscessos pancreáticos em 36 cães. As intervenções cirúrgicas incluíram debridamento pancreático, pancreatectomia parcial, biópsia pancreática, instalação de dreno de Sump-Penrose e drenagem com abdomen aberto. Nove cães necessitaram uma segunda intervenção, 6 foram eutanaziados durante cirurgia, 8 foram eutanaziados após cirurgia e 8 não sobreviveram durante o pós-operatório. Apenas 14 pacientes se recuperaram e foram avaliados por cerca de 2 meses. Dentre todos os casos, apenas dois tiveram cultura bacteriana positiva, já a efusão peritoneal demonstrou crescimento bacteriano em 7 de 12 amostras. Administração de antibióticos durante a cirurgia, drenagem abdominal, suporte nutricional e uso de colóides não puderam ser associados nem com melhora tão pouco piora do prognóstico. Os autores concluíram que cães com abscessos pancreáticos estão sujeitos a hospitalização prolongada, alta morbidade e mortalidade e prognóstico ruim, independente do tratamento empregado.

Comentários
A hospitalização prolongada e terapia de suporte associada ao tratamento de abscessos pancreáticos, no final, pode custar muito caro fazendo com que os proprietários decidam interromper o tratamento na metade por problemas financeiros. Infelizmente os autores não puderam prever o tempo de sobrevida de nenhum dos pacientes com os tratamentos e dados empregados. Quem sabe uma coleta de dados mais extensa e comparação com casos similares de outras instituições possam ajudar na precisão do prognóstico para os diversos tratamentos disponíveis.

sábado, 25 de abril de 2009

Doença Renal Escondida.

Sabe-se hoje que o Hipertireoidismo felino pode mascarar doença renal. Muitos veterinários confiam que gatos com concentrações normais de uréia e creatinina e gravidade específica urinária acima de 1.035 estão fora de risco de desenvolverem insuficiência renal secundária ao tratamento do hipertireoidismo. Riensche MR, Graves TK e Chaeffer DJ, publicaram no Journal of Feline Medicine and Surgery (10:160-166, 2008) um estudo para tentar determinar quais dados pré-clínicos podem ser usados para prever a ocorrência de insuficiência renal após iniciado tratamento para hipertireoidismo. Um total de 39 gatos com hipertireoidismo foram divididos em 2 grupos: aqueles que não haviam indícios de insuficiência renal por pelo menos 6 meses após tratamento (grupo 1; n=19), e aqueles que desenvolveram insuficiência renal dentro de 6 meses após tratamento (grupo 2; n=20). Sinais clínicos, exame bioquímico, hematologia e urinálise antes e após tratamento para hipertireoidismo foram analisados. Esses exames não mostraram diferenças significativas entre os dois grupos, e mesmo gatos com concentração urinária normal antes do tratamento desenvolveram azotemia. Os autores sugerem fazer um teste com metimazol antes do tratamento definitivo para hipertireoidismo (cirurgia ou terapia radioativa) para verificar os efeitos do eutireoidismo na função renal.

Comentários
Alguns estudos demonstraram diminuição da filtração glomerular ou desenvolvimento de azotemia após estabelecido eutireoidismo associado ao tratamento do hipertireoidismo felino. Esse fato levou ao debate sobre quando um teste com metimazol antes da cirurgia ou terapia radioativa é necessário. Mesmo que os autores não tenham identificado nenhum fator que pudesse prever a insuficiência renal, eles foram muito felizes em demonstrar que o fato de se ter concentração urinária normal antes do tratamento também não garante que o paciente está fora de risco. Devemos então aguardar por mais estudos que possam analisar novas medidas para previsão de insuficiência renal em gatos tratados para hipertireoidismo.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cefovecin: Útil para infecções de pele?

Gostaria de agradecer a participação dos leitores e tentarei responder as perguntas enviadas pelo e-mail. A última veio de uma colega de Curitiba-Pr sobre o uso do antibiótico Cefovecin para tratamento de dermatites em cães. Foi publicado recentemente no Journal of the American Veterinary Medical Association (JAVMA) (Six R, Cherni J, Chesebrough R, et al. 233:433-439,2008) um estudo para checar a eficácia e segurança da cefovecin em 235 cães com infecções de pele. Os pacientes foram divididos em 2 grupos, grupo 1 recebeu uma dose única subcutânea de cefovecin (8 mg/kg) seguida de administrações de placebo PO q12 hrs por 14 dias, e o grupo 2 recebeu uma injeção de placebo seguida de cefadroxil (22 mg/kg) PO q12 hrs por 14 dias. Alguns tratamentos foram estendidos por mais 14 dias de acordo com a avaliação médica de cada indivíduo. Ao término do tratamento, 92,4% dos cães tratados com cefovecin, e 92.3% com cefadroxil tiveram todos os sinais clínicos reduzidos a mínimo ou ausente. Ambos os fármacos tiveram boa tolerância. Os autores concluíram que uma única dose de cefovecin (8 mg/kg) SC, repetida ou não em 14 dias, mostrou-se segura e eficaz no tratamento de infecções de pele naturalmente ocorridas e foi tão eficaz quanto ao uso de cefadroxil (22 mg/kg ) PO q12 hrs por 14 à 28 dias.

Comentários
As cefalosporinas são muito usadas para tratar infecções de pele devido ao seu amplo espectro e segurança. Uma nova cefalosporina de terceira geração, cefovecin sódico, foi recentemente aprovada para uso no tratamento de cães com pioderma superficial, abcessos e lesões infeccionadas.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cultura Fúngica - Diagnóstico Definitivo

As doenças fúngicas mais comumente diagnosticadas por veterinários são causadas por dermatófitos. Prado MR, Brilhante RSN e Cordeiro RA, publicaram no Journal of Veterinary Diagnostics 20:197-202, 2008, um estudo onde os autores investigaram a presença de dermatófitos e leveduras em 633 amostras de 250 cães; 26 sadios, 131 com dermatites, 74 com otites e 19 com doença ocular. Das amostras de cães sadios, 13.5% foram obtidas da pele, 42.3% das orelhas e 3.8% dos olhos. Todas as amostras foram preparadas para cultura e isolamento e checadas com microscopia direta para comparação. Crescimento fúngico foi notado em 20.4% das amostras obtidas de cães com dermatite. Algumas amostras de cães sadios levaram ao crescimento de Malassezia pachydermatis. Das amostras de lesões de pele, Microsporum canis foi isolado com maior frequência (n=39), seguido de Malassezia pachydermatis (n=30) e outras espécies de Malassezia (n=30). Das amostras obtidas em cães com otites, Malassezia pachydermatis foi isolada em 60.8% dos casos e em 2.6% em amostras dos olhos.

Comentários
Os resultados desse estudo comprovam que Malassezia pachydermatis é um importante fator agravante nas doenças de pele, assim como o isolamento de M.canis pode estar automaticamente associado com a formação das lesões de pele. Os resultados também sugerem que a cultura fúngica foi superior a avaliação microscópica direta, e deve ser usada para obtenção de um diagnóstico definitivo em dermatomicoses e otites.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Animais Exóticos - Existe algum risco para nós??

O contato com animais em geral promove vários tipos de emoções além de ser um grande benefício para a socialização de crianças. No entanto, existem também os riscos associados ao contato com animais exóticos. Eu mesmo já fui proprietário de muitos pets exóticos incluindo cobras, lagartos, camudongos e tartarugas. Hoje eu continuo tendo contato com uma tarântula adquirida pela minha esposa. Durante os últimos 15 anos, animais exóticos (incluindo répteis e algumas espécies de mamíferos) aumentaram a popularidade. Segundo a pesquisa publicada no Pediatrics Journal 122:876-886,2008 por Pickering LK, Marano N, Bocchini JA e Angulo FJ, animais não tradicionais podem introduzir agentes infecciosos não existentes no país, assim como expor seres humanos e animais domésticos à doenças zoonóticas. Dentre os exemplos citados no artigo, os mais importantes foram répteis com salmonelose, hamsters com vírus da coriomeningite linfocítica, roedores com praga, macacos com vírus da herpes B e peixes com micobactérias. Crianças com menos de 5 anos apresentaram o maior risco de infecção devido a mordidas, arranhões e, mesmo que não totalmente comprovado, reações alérgicas.

Comentários
Esse artigo apresentou informações bem detalhadas sobre os riscos de se possuir animais exóticos em casa. Muitos proprietários ou interessados em possuir esses tipos de animais não tinham conhecimento desses fatos. O estudo enfatiza que veterinários, assim como médicos pediatras, devem estar preparados para discutir sobre posse responsável e cuidados para minimizar riscos de transmissão de doenças, principalmente quando crianças estão envolvidas. Eu aprendi muito com esse artigo e confesso que tomei algumas medidas em casa para garantir a segurança de todos (esposa, três gatos e um cachorro).

terça-feira, 21 de abril de 2009

Tratamento promissor para FeLV & FIV

Foi publicado recentemente no International Journal of Applied Research (Gingerich DA, 6:61-68,2008) o uso de um agente imunoterapeutico (Imunomodulador de linfócitos T - LTCI) que por mostrar resultados promissores em estudos in vivo e in vitro está planejado seu uso em casos clínicos. LTCI é usando como tratamento adjunto em casos de infecção pelo vírus da leucemia felina (FeLV) e da imunodeficiência felina (FIV). LTCI é uma glicoproteína timica produzida por células epiteliais stromal do timo. Seu mecanismo de ação é ativar células T-helper CD4++ para produzir interleucina-2 (IL-2), gama interferon (IFN) e outras citosinas. IL-2 e IFN estimulam CD8+ (linfócitos-T citotoxicos) a atacarem células infectadas pelos vírus assim como células tumorais. Os efeitos obtidos nesse estudo confirmaram a utilidade do LTCI como um imunomodulador capaz de promover resposta imune e reduzir viremia circulante. Como eu disse anteriormente, já foi planejado seu estudo em casos clínicos.

Comentários

Esse é sem dúvida um tratamento promissor para gatos portadores de FeLV e FIV. LTCI já possui licença condicional para uso terapêutico nos EUA pelo Departamento de Agricultura (USDA), isso demonstra que a expectativa desse produto é alta uma vez que o USDA só libera licença condicional aos produtos que demonstram eficácia, que sejam puros, e que passaram por testes de segurança. Vamos ficar de olho..

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Isso é Aflatoxicose??

Já que comentamos sobre intoxicação com uva passa, vamos continuar no mesmo tópico. Esse artigo foi publicado no Journal of the American Veterinary Medical Association (JAVMA) por Dereszynski DM, Center SA, Randolph JF e Brooks MB (232:1329-1337,2008). Cães são susceptíveis a aflatoxicose. Em 2005 houve uma distribuição de comida de cães contaminada com aflatoxina nos EUA, principalmente nos estados do sudeste. Eu lembro muito bem desse incidente, eu estava na Florida e houve um alvoroço, hospitais veterinários lotados de clientes preocupados e a situação só piorava a medida em que a mídia atualizava a lista de marcas de fabricantes de ração que identificavam a toxina em seus lotes. Um estudo retrospectivo de 72 casos foi conduzido para caracterizar os sinais clínicos, achados clinicopatolgicos, tratamentos e tempo de sobrevida de animas envolvidos nesse episódio. Os sinais clínicos mais comuns foram anorexia, letargia, vomitos, icterícia, diarreia, efusão abdominal, edema periférico e em casos mais complicados encefalopatia. Os achados clinicopatologicos mais evidentes foram distúrbios de coagulação e eletrolíticos, hipoproteinemia, elevação das enzimas hepáticas, hiperbilirrubinemia e hipocolesterolemia. Pacientes que apresentavam cilindruria granular (7/21) tinham o pior prognóstico. Os melhores marcadores para um diagóstico antecipado foram a atividade plasmática das proteínas anticoagulantes (proteina C, antitrombina) e hipocolesterolemia.

Comentários
Aflatoxina, uma toxina produzida pelo fungo Aspergillus, pode causar intoxicação com risco de vida em cães devido a disfunção hepática. Diferenciar aflatoxina como sendo a causa da insuficiência hepática pode ser muito difícil em certos casos. Esse artigo cita diversos marcadores que podem ser usados como auxílio diagnóstico, no entanto diversos testes não comumente realizados em cães assim como biopsias podem ser necessários. O diagnóstico antecipado é importante não somente para melhorar o prognostico, mas também para identificar que existe contaminação nas rações sendo distribuídas antes que as proporções tornem-se gigantescas.